10 Dúvidas mais comuns sobre o Crack

1- O crack cria dependência desde a primeira experiência?
A dependência química envolve o patrimônio biológico de cada pessoa (herdado), as condições socioculturais nas quais ela nasce e se desenvolve e as condições ou patrimônio psíquico de cada um. Não considero apropriado dizer que alguém desenvolverá dependência química ao crack desde a primeira utilização.
2- Qual é o impacto do crack nos diversos setores da vida do usuário?
Em geral, os usuários de substâncias  psicoativas legais e/ou ilegais são capazes de manter o consumo sob controle.   O abuso é, seguramente, um sintoma e não uma causa. Costuma-se dizer no meio psicanalítico que “o sujeito faz a droga”. Isso quer dizer que o impacto de uma substância na vida do consumidor tem mais a ver com o próprio consumidor e seu contexto (condições de extrema miséria social e/ou sofrimento psíquico) do que com as propriedades da substância química.
3- O próprio usuário pode se ajudar para combater a dependência?
Considerando que a dependência química compromete a vontade, raramente se espera que o paciente busque espontaneamente tratamento, mesmo que reconheça os riscos e danos implicados em sua conduta. É fundamental a interferência (amorosa, cuidadosa, respeitosa) da família, de amigos, colegas e até da lei.
4- Como prevenir o uso entre os jovens?
Por mais que pareça que eles conhecem tudo sobre as drogas, é importante conversar sobre aonde podem chegar, sem fazer terrorismo. É preciso fornecer outros caminhos para aplacar aquilo que a droga proporciona:        relaxamento, excitação, maior participação social, segurança.  A idéia é conversar sobre perdas e ganhos, mostrar a droga como um remédio veneno (remédio porque proporciona prazer e sensação de preencher uma lacuna e veneno pelas conseqüências que traz)
5- Qual o papel da família no tratamento?
Por trás dos usuários de crack existem famílias muito desamparadas e desenraizadas que passam por situações de vulnerabilidade.  Um desafio no tratamento dos dependentes é compreender o abismo que se estabelece entre o usuário e a família. E aqui é importante ressaltar que alguns meios de comunicação contribuem para deixar essa relação ainda mais fragilizada quando transmitem a idéia de que o usuário de crack é um marginal.  As famílias sofrem demasiadamente por falta de informação e por causa de mensagens sensacionalistas que não correspondem à realidade.
6- Como reconhecer – em casa/no trabalho – um dependente?
Há vários sintomas que se instalam rapidamente: fragilidade física (emagrecimento), cansaço, sonolência, “noia”, a pessoa fica desconfiada, insegura e com síndrome de perseguição, dificuldade para manter a rotina (pois fica vulnerável ao consumo), alteração do sono, estresse físico e mental, inapetência.
7- O consumo de crack por gestantes dificulta o parto?
No momento do parto, o uso de crack foi associado a maiores taxas de contratilidade uterina anormal, descolamento prematuro de placenta e hipertensão (pré-eclâmpsia).  A gestante usuária ainda pode ter risco aumentado para desenvolver acidentes vasculares. Geralmente o uso de crack não ocorre de forma isolada e até o momento não se sabe ao certo quanto desses efeitos pode ser atribuído a essa droga e quanto está associado a outros fatores de risco como doenças infecciosas, doenças psiquiátricas, uso de outras drogas lícitas e ilícitas, ausência de pré-natal, exposição à violência e à pobreza.
8- O bebê de uma usuária nasce com algum tipo de dependência?
Não, o bebê não é dependente e a abstinência ao crack ou à cocaína não está cientificamente comprovada (ao contrário do que ocorre com o cigarro e os opiáceos ).
O bebê apresenta efeitos relacionados a alterações nos neurotransmissores, que poderão ser temporários ou duradouros (irritabilidade, dificuldades de consolo e motoras).
Essas alterações poderão ser minimizadas ou potencializadas conforme o atendimento e os cuidados que essa criança recebe durante os primeiros anos de vida.
9- O que fazer para ajudar o usuário?
A família e a escola devem acolher o jovem. A primeira diretriz da escola é não excluir o aluno, seja qual for o envolvimento que tiver com a droga. A família deve assumir seu lugar com autoridade, dando limites.  É um contexto paradoxal de risco e proteção. Ambos precisam ser ajudados.
O grande desafio é que o dependente não procura ajuda sozinho. Ele expressa o sofrimento e a necessidade de ajuda com o próprio uso da droga. É preciso uma aproximação cuidadosa para que ele possa expressar o que o levou a buscar a droga.
10- O uso de crack deixa alguma seqüela para o desenvolvimento físico e mental de um adolescente?
O crack altera o autocontrole, que já não é estável na adolescência. Além disso, provoca uma confusão dos neurônios que altera o sistema hormonal e desencadeia um quadro psicótico com síndrome de perseguição e agressividade. O cérebro deixa de aprender e desenvolver uma série de habilidades e desenvolve a patologia. Quanto mais cedo são feitos o diagnóstico e a intervenção, mais rápido se consegue reverter o quadro. Os adolescentes respondem rapidamente aos tratamentos multidisciplinares.
Profissionais que trabalham com o tratamento e a recuperação de dependentes químicos, em diferentes localidades do país, respondem a questões básicas para desmitificar o assunto sobre o crack.